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Diário de Viagem: Cuba continuação

Cuba é aquele lugar estranho em que apenas 1 dia é necessário para você se sentir em casa. É a mesma coisa de entrar em um colégio novo, mas com uma turma bem animada, e que você se identifica rápido. A aspereza do aeroporto, a falta do tão amado WIFI, sem shoppings e com a nossa premente necessidade de se consumir bens, fica em segundo plano, quando percebemo que o modelo de consumo de cuba é de novas experiências.

A segurança de se andar nas ruas facilita 90% da viagem. Não há a nossa preocupação de cada dia. Ir à rua é um passeio com emoção, mas a emoção positiva. E por aí ganhamos coragem, enrolamos nosso português, com o espanhol cubano, e depois do primeiro mojito estamos "hablando". E mais, uma vez que conjugamos o verbo hablar, não paramos mais. A boa vontade dos cubanos ajuda.

E assim vamos sorvendo experiências novas, como andar e conhecer carros que eram feitos para durar uma vida, o que contraria com os nossos que após 1 ano, já são usados, e que depois de 5 anos, já está na hora de se aposentar. Aliás, tudo em Cuba parece feito para durar, e com isso há um certo esmero na conservação, inclusive da cultura. Por isso, a mudança cada vez mais constante em nossa vida, por lá é mais devagar. 

Se tira essa conclusão logo de cara quando olhamo os artistas cubanos, a televisão que passa enxadristas, revolucionários e amigos de Fidel, o seu culto à personalidade de Chê, que praticamente é o patrono do país, mesmo sendo Argentino. O povo cubano é extremamente grato. Mas clama por mudança, nem que seja devagar.

Há uma fácil percepção de que há sim classes sociais diversas no país. Os mais abastados são os que trabalham com o turismo, e essa parece ser a vocação da economia cubana, um país que se consolida como um verdadeiro museu a céu aberto. E onde turistas são recebidos com muita receptividade, e oferecem o mesmo respeito em troca.

No entanto a pobreza existe, já fome e miséria, confesso que não presenciei, logo esta que se emerge em cada canto de nosso Brasil, seja onde estivermos. E o mais interessante foi presenciar uma aula de ensino básico, com suas salas pequenas, crianças bem vestidas, bem comportadas, cantarolando e do lado de fora a rua mais movimentada do centro de Havana, com turistas e locais se entrecruzando. É de se admirar o esmero que a sociedade cubana cuida de seus jovens. Após se formarem no curso universitário, coisa que mais de 80% dos jovens cubanos conseguem, precisam trabalhar de 2 a 3 anos para o governo. O que é justo, mesmo sob uma perspectiva de mercado.

A questão é que 80% da população cubana economicamente ativa e empregada trabalha para o governo, percebendo uma remuneração muito abaixo da média internacional. Os relatos são de uma média de 100 dólares por mês, isso para os formados. Os trabalhadores que possuem apenas o segundo grau, e em profissões como cozinheiro, como era o caso de nosso bici-chofer, ganham 25 dólares mensais. Em uma cidade cujo custo de vida para se alimentar é maior (para o turista) do que o Rio de Janeiro. 

Portanto, havendo possibilidade, os jovens tem procurado trabalhar para os turistas, acabam escolhendo racionalmente uma família com 1 ou nenhum filho, dado o custo de vida alto, e a baixa remuneração, o que provavelmente levará Cuba a uma mudança. Esta é certa, quando eu não saberia dizer. E essa mudança passa, possivelmente, por uma ascensão de um regime democrático. Nada é mais benéfico a um povo culturalmente rico, do que poder colocar em prática seu intelecto na hora de escolher seus representantes. Diferentemente do Brasil, onde a baixa qualidade educacional, torna o povo refém de seus representantes.



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